quinta-feira, 3 de abril de 2014

Carta da Rede Feminista sobre o caso Adelir

CARTA

"Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos – Regional RS

Marcha Mundial de Mulheres

Campanha Ponto Final na Violência Contra Mulheres e Meninas

Cesariana forçada – uma violação aos direitos reprodutivos das mulheres




O movimento de mulheres do Rio Grande do Sul, por meio de suas entidades, foi tomado de estarrecimento diante da denúncia sobre a realização de uma cesárea forçada no município de Torres esta semana, fato esse confirmado por notícia veiculada na Folha de São Paulo de hoje (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/04/1434570-justica-do-rs-manda-gravida-fazer-cesariana-contra-sua-vontade.shtml). 


Segundo se sabe, a gestante ACLG, de 29 anos, após avaliação do seu estado gestacional na unidade hospitalar do município, decidiu aguardar em casa o momento de realizar seu parto. No entanto, inconformada com a decisão, e alegando que o feto estava em posição sentada, uma médica solicitou liminar à justiça para realizar o procedimento, que foi obtida. Levada por policiais militares ao Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, a gestante foi submetida à cirurgia para retirada do bebê, uma menina, sem o seu consentimento. Desta forma, os agentes envolvidos, contrariando todos os preceitos de humanização dos serviços de saúde, bem como os princípios do direito, entre os quais destacamos a razoabilidade, a preservação da dignidade humana e a intimidade, impingiram aquela mulher medida excessiva que afeta seus direitos fundamentais, sem qualquer amparo técnico assistencial ou mesmo jurídico.





Em função da gravidade desses fatos, solicitamos à Prefeitura Municipal de Torres, onde a usuária do SUS foi atendida e às autoridades sanitárias, a tomada de providência para sua completa elucidação, pois é flagrante o desrespeito ao direito da mulher de optar pela via de parto para dar à luz. Para nós, uma violação aos direitos reprodutivos, que consistem na possibilidade das pessoas poderem escolher, mediante a informação, como, quando, onde e em que condições ter ou não ter filhos. Estes direitos são amplamente reconhecidos pelas Nações Unidas e firmados pelo Governo Brasileiro em documentos nacionais. Por outro lado, o argumento utilizado pela justiça para a liminar se ancora no direito de primazia do nascituro, esse sim não reconhecido pela legislação brasileira.

Sabemos que no Brasil 55% dos partos realizam-se através de cesarianas, contrariando estatísticas internacionais e a Organização Mundial da Saúde, que recomenda que esse percentual não passe de 15%. Na rede privada estes números chegam a 84% dos partos (2013), segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Isso se deve, segundo importantes estudos à “cultura da realização das cirurgias cesarianas”, a grande maioria desnecessária, não raro induzida pelos próprios médicos, e às oportunidades de realizar outros procedimentos cirúrgicos na mesma ocasião. 





A pesquisa “Cesarianas desnecessárias: Causas, consequências e estratégias para sua redução[1]” realizada com usuárias do SUS e de planos privados de saúde detectou, entretanto, que 70% das mulheres preferem o parto normal. Porém, baseadas no medo da dor do parto, da realização conjunta de laqueadura e o desconhecimento de métodos para aliviar a dor e facilitar o parto, acabam aceitando propostas de abreviar a gestação, alimentando o entendimento de gestação e parto como questões de doença e não de não como evento de saúde da vida das mulheres. 





As consequências das cesarianas desnecessárias são as infecções decorrentes dos procedimentos inadequados, cicatrizes no útero e no corpo, maior tempo para recuperação, perda de autonomia e de participação no momento do nascimento do bebê e influem grandemente nas causas de mortalidade materna no Brasil. Este um grave problema de saúde pública que o país não tem conseguido vencer e vem sendo cobrado em ações como o Caso Alyne no Comitê Cedaw/ONU.





Vivemos tempos de avanço do conservadorismo, do controle da vida das mulheres. Nossa sexualidade tem sido cada vez mais mercantilizada. Nosso corpo facilmente transformado mercadoria para fomentar a sociedade capitalista patriarcal . A indústria da cesariana é uma exemplo significativo desse processo. Exigimos que o Estado adote condutas de responsabilização desta violação de direitos promovidas pelos seus agentes. Exigimos que a autonomia e a dignidade das mulheres, na qualidade de direitos fundamentais, conquistados a duras penas, esteja acima dos interesses e entendimentos individuais, que busquem de qualquer forma, submeter e apropriar-se das escolhas, dos corpos e das vidas das mulheres.





Reafirmamos: os direitos das mulheres são direitos humanos. A saúde reprodutiva é parte essencial dos direitos reprodutivos, devendo ser vivida na plenitude. Uma cesária forçada é uma violência obstétrica, contrariando todos os preceitos do parto humanizado. A violência contra as mulheres é uma violação aos direitos humanos.





Porto Alegre, 3 de abril de 2014

Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos – Regional RS

Marcha Mundial de Mulheres

Campanha Ponto Final na Violência Contra Mulheres e Meninas"

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Próximo encontro do Ishtar - Recife: INDICAÇÕES DA CESARIANA BASEADA EM EVIDÊNCIAS

Cesaristas, tremei. As mulheres vão saber o que é verdade e o que é mentira com relação às suas indicações esdrúxulas para operá-las sem necessidade. E são essas mulheres que vão fazer a revolução do parto. Aguardem e verão. Ou se adequem a esta demanda.

A grande arma delas a gente ajuda a fornecer: INFORMAÇÕES DE QUALIDADE.
Próximo encontro marcado! Falaremos sobre a CESARIANA: SUA INDICAÇÕES REAIS BASEADAS EM EVIDÊNCIAS (e, obviamente, entraremos nas falsas indicações que são usadas para convencerem as mulheres de que ela seria a melhor opção).



Divulguem!

Dia 05.04.14
Local: Sádhana Yoga - Rua das Graças, 178 - Graças
Horário: das 10h às 13h

Esperando vocês lá!

segunda-feira, 31 de março de 2014

Semana HUMANIZA SUS - Desvelando a Violência Obstétrica (mesa redonda)

Para combater uma opressão, é preciso visibilizá-la.
Abrindo a Semana HUMANIZA SUS, é isso que eu e Júlia Morim tentaremos fazer ao facilitar o debate sobre a Violência Obstétrica, que ainda é uma violência contra a mulher invisibilizada em função da força do corporativismo médico, dentre outros fatores culturais pautados em normas patriarcais.
Afinal, por que, no mundo, só as brasileiras não conseguem ter acesso ao parto normal, humanizado, preferencialmente???!!! E por que tantas se queixam do parto (ou não-parto) ter sido uma experiência horrível para elas?

Nosso corpo nos pertente. Nosso parto, consequentemente, segue a mesma linha de raciocínio. O parto é da mulher!
Esta pauta está dentro dos direitos reprodutivos da mulher.
Todxs convidadxs!
Inscrições gratuitas e limitadas através do site. Acesse: www.grupocefapp.com.br/evento.php?id=43
Segue abaixo a programação completa da Semana Humaniza SUS:

quinta-feira, 27 de março de 2014

"Quarta passada eu dei uma voadora no sistema cesarista e episiotomista"

"Quarta passada eu dei uma voadora no sistema cesarista e episiotomista.
Pari no IMIP, de forma natural, e respeitosa.
Fui para a 1ª triagem ás 09:30h (depois de ter pego engarrafamento no caminho Ibura/IMIP, e chegado lá por volta das 09:00h), na 2ª triagem, uma médica contou as contrações e me deu o toque, estava com 4 para 5 de dilatação, e por volta das 10:30h, logo depois do toque a bolsa estourou. Demorou um pouco pra fazer a ficha de internamento. Eram questionários infinitos.

Fui encaminhada ao PPP, depois que cheguei lá, levei mais um toque e estava com 7 cm de dilatação. Elis nasceu ás 14:10h, na banqueta de parto, com 2.910 kg, Apgar 9 e 9.

Não teve ocitocina sintética, não teve episiotomia, nem laceração ou pontos.
Tive apoio, carinho, teve Deivson (companheiro) me doulando, me pedindo pra respirar, me dando água, deixando que eu o apertasse muito, me dando forças e mandando minhas incertezas pra bem longe
Teve banho quente, bola e rebolados.
Teve gritos, ninguém pra me mandar calar a boca, mas sim concentrar a força do meu grito pra baixo, pois já estava vindo.
Teve um círculo de fogo, uma cabeça molhadinha, e em seguida um corpinho, perninhas e bracinhos abertos, olhinhos brilhando... ahhhh
Não havia uma mãezinha, mas sim uma Aline parindo.



Nossa primeira foto: eu, com cara de assustada, mas feliz, e ela olhando pra tuuudo."

(Por Aline Beltrão)

terça-feira, 25 de março de 2014

Aquela que serve. Com muito amor no coração.

Belo documentário sobre o trabalho das Doulas e suas funções e atribuições em um parto humanizado. Vale bastante à pena assistir.

Amar é...
Ser Doula.

Deliciem-se.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Anne, Yanoã e o SUS em que eu acredito

À meia-noite e 5 minutos do dia do mês passado, ou seja, há exatamente um mês atrás, aconteceu um parto natural muito bonito: Anne, uma mulher muito forte, e que estava muito cansada após mais de 20 horas de trabalho de parto (das quais 15 foram parto ativo intra-hospitalares, e sem falar que esse tempo não está considerando os pródromos, que iniciaram na noite anterior), trouxe para nosso mundo Yanoã, que nasceu lindamente, super ativa e foi muito bem recebida neste mundo. Tinha tanta circular de cordão que nem deu para contar, a equipe teve que, literalmente, 'desenrolar' a pequena Yanoã de seu 'cinto de segurança' :). Anne pariu na banqueta de parto, sem absolutamente NENHUMA intervenção. Parabéns, Anne!!! Parabéns, Yanoã!


Tantas circulares de cordão, que parecia um ioiô. :)

Agora a hora do ativismo, depois de ter sido honrada por esta mulher de força para estar junto no nascimento de sua primeira filha: que TODOS os hospitais públicos se adequem à realidade da humanização do parto que já se faz presente no Espaço Aconchego do IMIP, o 'PPP'. O espaço é pequenininho, uma gota de humanização em um oceano de violência obstétrica, mas o espaço está lá, garantido, mostrando serviço. Alguns pequenos ajustes ainda são necessários, mas o caminho já foi aberto. As pessoas que atuam na assistência ao parto lá foram deliciosamente envolvidas pela humanização do parto. E esse caminho é o caminho certo: o caminho de respeito à mulher como uma PESSOA que ela é. Gratidão a Carol, Priscila e tantas outras que mostraram que uma assistência diferenciada e focada no bem-estar da mulher pode ser possível no nosso SUS.



O apoio na triagem do IMIP.

Aos 'episiotomistas' de plantão, gostaria de informar que não, ela não teve uma ~laceração que uniu vagina e ânus~, como gostam de acreditar que SEMPRE acontece em parto normal. Apenas uma pequena laceração de primeiro grau (só mucosa, sem envolvimento muscular), 3 pontinhos apenas, que só foram necessários por causa do sangramento (porque se não estivesse sangrando, essa sutura seria repensada/dispensada). Se fosse feita uma episiotomia 'preventiva', o estrago teria sido MUITO maior, você sabem que quando se envolve músculo a coisa muda de figura. Repensem seus conceitos, por favor, e parem e cortar os períneos das mulheres sem necessidade.



Massagem com bolinha, já no Espaço Aconchego (PPP) do IMIP

Agradecendo profundamente à queridíssima amiga Leila Katz pela disposição em lutar pelos direitos das mulheres no nosso sistema público de saúde, e pela disponibilidade e coração entregues à causa, sempre - e para sempre.




Liberdade de movimentação e escolha
das posições mais confortáveis para ela.

E, principalmente, desejar do fundo do meu coração que todas as usuárias do SUS adquiram o empoderamento que Anne adquiriu. A mulher SABIA o que queria, e isso fez A DIFERENÇA no nascimento de Yanoã. Nós, do Ishtar - Recife, acreditamos que esta mulherada é quem vai fazer a verdadeira revolução da humanização do parto.



Anne bastante serena, em pleno trabalho de parto.

Ainda me emociono com a beleza do momento e com a força de minha querida Anne.



Amamentação na primeira hora

Pois é, NÓS PODEMOS! E podemos pelo SUS!!!


Uma Doula orgulhosa pela certeza da força
intrínseca de todas as mulheres.

Portanto: DEIXEM AS NOSSAS MULHERES PARIREM EM PAZ, POR FAVOR. É SÓ DISSO QUE ELAS PRECISAM: APOIO E SOSSEGO.


A mamãe Anne cansada, orgulhosa, poderosa e feliz.
A filha Yanoã serena, curtindo o calor do contato pele a pele,
que é tudo o que ela precisa neste momento.


Em visita pós-parto, trocamos de filhas por instantes. <3


A pequena Yanoã hoje, completando seu primeiro mês de vida. <3
Aí eu pergunto: Como não morrer de AMOR pelo meu trabalho como Doula?

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Já passou da hora de CRIMINALIZAR a violência obstétrica.

Vou falar uma coisa importante que, acredito, pouca gente sabe: no CÓDIGO PENAL nós temos subterfúgios para criminalizar profissionais que causem lesões corporais por aceleração de parto. Portanto, vocês, mulheres, que foram submetidas a uma episiotomia ou a uma cesárea agendada sem nenhuma justificativa plausível, vocês que se sentiram violentadas no seu parto, comecem a denunciar na justiça, e não apenas nos corporativistas conselhos de medicina.

Porque sim, estes ato médicos e cirurgias causam SIM lesões corporais, com consequências que podem se arrastar pelo resto da vida dessas mulheres.




Imagem: Google

Não adianta apenas o trabalho de conscientização das mulheres, este trabalho é apenas uma fatia do bolo para que se destrua um sistema obstétrico violento e misógino. É preciso CRIMINALIZAR os agentes ativos de atos médicos que se fantasiam de ~rotinas necessárias~.
Basta estudar um pouco para ver o que é e o que não é indicação REAL de uma cesariana. Basta estudar um pouco para enxergar que a episiotomia é um procedimento mutilante e que foi introduzido na obstetrícia sem nenhum tipo de respaldo ou estudo prévio, e que ela não serve para acelerar parto.




Imagem: Google

Sobre a manobra de Kristeller eu prefiro nem comentar, de tão absurda e arriscada que ela é, para mãe e feto. Mas tá, vai lá, copiado deste site: http://www.euqueropartonormal.com.br/eqpn/tag/kristeller/.


"Outra intervenção que tem como única finalidade diminuir o tempo do trabalho de parto e consiste em empurrar a barriga da mulher com o antebraço ou as duas mãos e há inúmeros depoimentos de mulheres dizendo que o anestesista ou a enfermeira “subiu na barriga”. Ainda hoje, é muito comum escutar do anestesista ou de uma das enfermeiras “na próxima contração, eu vou te ajudar a fazer força” e aplicar a manobra.


Imagem: Google

Esta manobra é extremamente dolorosa, perigosa e desaconselhável.  De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é uma conduta claramente prejudicial e ineficaz e que deve ser eliminada. Esta manobra aumenta o risco de laceração grave, pois faz com que a saída do bebê seja mais rápida e forçada do que naturalmente, não dando chance ao períneo de se adaptar ao movimento normal, aumentando enormemente a chance de rupturas severas de períneo, ainda que tenha sido feita uma episiotomia. Além disso, há relatos de mulheres que tiveram fraturas ósseas (costelas quebradas), laceração de órgãos (baço), hematomas, bebês machucados e até mortos por conta desta manobra."

Portanto, diante do descrito, segue abaixo na íntegra o art. 129 do Código Penal. Procurem a Defensoria Pública, procurem um/a advogadx, procurem o Ministério Público, enquanto ainda não temos uma lei ESPECÍFICA sobre Violência Obstétrica, é bom ficarmos sabendo que temos uma lei a nosso favor, e essa lei não é fraca não.

--


Código Penal - CP - DL-002.848-1940

Parte Especial

Título I
Dos Crimes Contra a Pessoa

Capítulo II
Das Lesões Corporais

Lesão Corporal
Art. 129 - Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano.

Lesão Corporal de Natureza Grave

§ 1º - Se resulta:

I - incapacidade para as ocupações habituais, por mais de 30 (trinta) dias;
II - perigo de vida;
III - debilidade permanente;
IV - aceleração de parto:
Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos.

§ 2º - Se resulta:

I - incapacidade permanente para o trabalho;
II - enfermidade incurável;
III - perda ou inutilização de membro, sentido ou função;
IV - deformidade permanente;
V - aborto.
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos.

Fonte: http://www.dji.com.br/codigos/1940_dl_002848_cp/cp129.htm


Mais fontes de estudo:

http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/11/estudando-cesarea-desnecessaria.html
- http://www.senado.gov.br/comissoes/documentos/SSCEPI/DOC%20VCM%20367.pdf
http://www.cmdiadema.sp.gov.br/PLidos/PL077-2013.PDF
http://www.ans.gov.br/portal/site/_hotsite_parto_2/oper_prest_evidencias.asp