Parabenizando Adriana e Eduardo pela força, energia, sintonia, amor, entrega e aceitação do processo respeitoso da chegada de Pedro (ou Peu, para xs íntimxs). E aproveitando para fazer uma declaração de amor (e de ativismo de feminista do parto - lógico que eu não vou perder essa oportunidade hehe).
Meus parabéns a uma mulher determinada, decidida, que, aos 45 do segundo tempo, virou sua vida ao avesso, mudou tudo o que estava planejado, mudou de obstetra às 41 semanas de gestação, após 2 cesáreas prévias, mesmo descobrindo um quadro de pré-eclâmpsia leve se desenvolvendo. Esse processo desenvolveu várias descargas de adrenalina o qual nenhuma gestante deveria passar, mas ela enfrentou tudo isso com muita força. Uma lindeza a força dessa mulher em trabalho de parto; uma lindeza a resignação e o amor deste homem apoiando todas as decisões dela e participando ativamente do processo de chegada de seu primeiro filho. Uma lindeza a aceitação de ambos de que nem sempre o processo finaliza como a gente planeja, mas o entendimento de que o mais importante em tudo é a forma como o processo se conduz, com respeito, com amor, com emoção, muita emoção. O caminho faz toda a diferença na vida das pessoas envolvidas, inclusive na do bebê que está chegando. O parto humanizado é um caminho, ele não é o fim do caminho, mas todo o percurso.
Agradecendo a esta nova família pela honra em me permitir participar de um momento tão íntimo, ímpar e importante na vida dessas pessoas. Agradecendo toda a confiança nas nossas conversas e indicações.
Parabenizando e agradecendo fortemente também à equipe que topou a mudança de última hora, que monitorou tudo com muito cuidado, com muito amor, com muito respeito a todas as escolhas dessa mulher. Foi um nascimento LINDO, sem sofrimento, humanizado. Peu nem chorou direito, não sentiu o choque da transição entre o mundo do lado de dentro para o mundo do lado de fora. Ficou só observando os olhos do seu pai, ambos em processo de reconhecimento mútuo. Mamou na primeira hora, não foi agredido no pós-parto imediato com luzes fortes, nem frio, nem colírios, nem sondas, nem corte precoce de cordão umbilical, nem separações bruscas.
Agradecendo à rede de apoio com a qual eu sei que consigo sempre contar, seja com dicas técnicas, seja com emanação de energias feministas. Um universo se forma e conspira fortemente em defesa dos direitos da mulher e da criança em um parto humanizado. É impressionante e incrivelmente linda a força conjunta que nós temos, a conexão que nós formamos em defesa das escolhas das mulheres.
Apenas: LINDO. Ainda em êxtase aqui.
Seja bem-vindo, Peu. Que você tire de letra a amamentação, assim como tirou de letra o trabalho de parto às 41 semanas e 3 dias de gestação. Tava era bom lá dentro, néra? Mas aqui fora também é bem legal, tenho certeza de que sua mãe e seu pai farão você entender que aqui fora pode ser ~quase~ tão bom como estava dentro do seu aconchego simbiótico no útero de sua mãe. Tenho certeza de que sua missão aqui será vista em breve neste mundo que precisa tanto de mudanças. E eu acredito MUITO na sua geração, na geração das crianças que nascem assim, dessa forma.
Seja bem-vinda ao mundo de uma obstetrícia respeitosa, Adri. Esse é o mundo no qual eu acredito. Um dia todas as mulheres em trabalho de parto serão tratadas como você foi hoje. Porque TODAS as mulheres merecem uma assistência humanizada e cuidadosa, sem perder o rumo da segurança e da ciência.
Seja bem-vindo ao mundo dos pais, Eduardo. Boas surpresas o aguardam. E muito aperreio também hehehe
E, por fim, seja bem-vindo, 2014. Você chegou chegando.
Um lindo vídeo de um parto humanizado hospitalar de bebê sentado. E um texto maravilhoso de Ana Cristina Duarte sobre a evolução (ou desvolução) histórica que transformou o parto pélvico em um terror absoluto para todas as grávidas e profissionais que assistem partos no Brasil. E não precisa ser assim.
Vamos mudar essa história de terror, vamos transformá-la em muitas histórias de AMOR. Como essa aí abaixo.
"Olha, vou contar para vocês um pouco sobre partos pélvicos, o que conversei ontem com uma linda gestante cujo bebê resolveu ficar sentado até o final da gestação. Ela agora está na difícil tarefa de ter que escolher o que fazer.
Houve um tempo, até uns 50 anos atrás, que pélvico era um tipo de parto. Simples assim. Os médicos sabiam, as parteiras sabiam, e pronto. As nossas bisavós tiveram ou tinham uma irmã ou amiga que teve parto pélvico, sem maiores delongas.
Até que surgiu a cesárea, cada vez mais segura, cada vez mais comum. Nos cursos de medicina os médicos foram perdendo contato com o pélvico e na ausência do professor, operavam. Muitos cursos de medicina pararam de ensinar parto pélvico.
Em 2000 uma mulher do Canadá publicou um artigo enorme dizendo que o parto pélvico tinha mais risco para o bebê do que a cesárea. Esse artigo destruiu de vez as chances de um médico aprender a fazer parto pélvico e as mulheres de terem esse direito.
Cinco anos depois, já tinham saído mais dois artigos, um provando que o anterior foi tremendamente mal feito e não tinha o valor acadêmico que lhe foi atribuído e outro acompanhando essas mesmas crianças que nasceram no trabalho anterior e mostrando que a médio prazo a via de parto não fazia diferença para as crianças. Mas que a médio prazo continuava sendo pior para as mulheres a cesariana.
Agora já estão em andamento trabalhos nos EUA, Alemanha, Israel, França e Austrália mostrando que o parto pélvico é tão seguro quanto a cesárea, respeitadas algumas condições (bebê de termo, com menos que 4kg).
Qual é a questão no Brasil? A questão principal é a do risco profissional. Para os que não sabem fazer parto pélvico, o cara tem pavor de acontecer alguma coisa. Para os que sabem, o problema é o risco jurídico. Diante da cultura da cesariana no Brasil, qualquer coisa que aconteça num parto pélvico, mesmo que seja alguma coisa nada a ver com o parto, algo que a criança já tinha, até um problema congênito, por exemplo, o médico vai ser acusado de ter causado aquele dano.
Às vezes não é nem o paciente que move processo, mas sim outros médicos. Num parto pélvico recente que acompanhei num hospital, o bebê nasceu e foi atendido por um pediatra da casa (não deu tempo de chamar um dos nosso). O pediatra enlouqueceu por terem deixado o bebê pélvico nascer de parto normal e disse pro médico e para os pais que tinham fraturado as duas pernas do bebê. O bebê não teve fratura alguma, raio X veio lindo, o médico não se conformou, mandou fazer de novo o raio X, que veio lindo novamente, e só assim ele parou de infernizar a pobre mãe e o pobre médico.
E tem muito médico por aí que acha um absurdo parto normal ou natural, quanto mais um parto pélvico. Que loucura, que perigo!
Até mesmo em partos normais a gente vê isso. Qualquer problema que o bebê tenha, se nasceu de parto normal, a culpa foi do parto. Paradoxalmente são os bebês nascidos de cesariana que têm mais problemas. Mas ninguém se preocupa com esses, nesse caso o bebê é que era doentinho. Mesmo que seja um pulmão molhado com 10 dias de UTI. Não são só médicos que estão tão mal-educados quanto à questão do nascimento. Toda a sociedade está! Muitos maridos, famílias, amigas, enchendo a cabeça das mulheres que terão ou que tiveram um parto pélvico normal.
Atender, dentro desse cenário, um parto pélvico, é um serviço para heróis. O risco que esses médicos e parteiras correm não é do parto. É o da sociedade em que vivemos.
É o papel de cada uma de nós aqui, como mães, profissionais e educadoras (toda mãe é uma educadora), mostrar para a sociedade, em palavras meigas e sutis, que as pessoas enlouqueceram! Que as pessoas não estão entendendo a questão do nascimento.
Ninguém pensa nos riscos que uma mulher corre a longo prazo após uma ou mais cesarianas. Ninguém quer saber das placentas acretas, prévias, rupturas, infertilidade. Ninguém cumprimenta uma mulher que teve um parto pélvico. As pessoas a chamam de louca!
E cabe a cada uma de nós ajudar a mudar esse cenário.
Deixo aqui meu abraço a cada mãe que teve a coragem de ter um parto pélvico e um abraço ainda mais forte em cada mãe que não conseguiu vencer essa gigantesca onda contrária, quase tsunâmica. E um abraço ainda mais forte e profunda solidariedade a quem quis tentar, mas teve seu direito negado.
Todos vocês são absolutamente dignas de toda a nossa admiração.
Um abraço longo e demorado a cada profissional de saúde que tem a coragem de permtir a uma mulher parir um bebê que resolveu vir com o bumbum primeiro.
Amo os nossos encontros, principalmente encontros como o de hoje, que tinha MUITA gente procurando informação, procurando sair da bolha, procurando empoderamento para definir suas escolhas e dicas de como peitar a cultura da violência obstétrica, que também é violência contra a mulher e contra a criança.
Amo o mundo da humanização do parto.
Amo poder estar mais disponível a ajudar mais e mais mulheres, como doula, como feminista e como coordenadora do grupo, para que elas não passem por violência, para que tenham uma experiência inesquecivelmente positiva de parto.
Cada parto transformador que acontece com uma das participantes do grupo (de qualquer grupo) me deixa em êxtase, como o de Marília, que aconteceu ontem, e ode Paty Brandão (foto); Cada encontro fica mais cheio de mulheres, homens e curiosxs.
Cada encontro fica mais emocionante para quem faz e para quem participa. Está sendo comum o derramamento coletivo de lágrimas no fim dos encontros, lágrimas de libertação, lágrimas de esperança.
Amo esse mundo de ativismo em defesa dos direitos das mulheres.
Lembro do primeiro encontro em que fui, há cerca de 5 anos, onde só tinha EU de grávida, e duas recém-paridas. Os encontros eram pequenos, no salão de festas da casa de Analu, uma das fundadoras do grupo. Quando vejo no que isso está se transformando, na proporção que está tomando, em todo o Brasil, só consigo ver luzes e alegrias à frente.
Sei que ainda temos muito o que mudar, não só referente ao parto, mas também à cultura machista em que vivemos. Mas quando olho para trás, vejo como mulheres unidas e conectadas em defesa de nosso gênero fazem, verdadeiramente, uma revolução social bem sucedida.
O futuro é nosso, e é um futuro mais justo e sem violência contra mulheres e crianças.
Definitivamente, parir é um ato político. Não era para ser, assim como várias outras atitudes de mulheres que apenas são livres também não deveria. Deveria ser natural, caso a sociedade aceitasse as atitudes de mulheres sem julgamentos. Mas é político.
E as formiguinhas feministas e do parto continuam fazendo seu papel, às vezes precisam ferroar, às vezes apenas ajudam as outras a carregarem as folhas mais pesadas. Mas o trabalho está sendo feito, na maioria das vezes de forma pacífica, sem cessar, e com resultados extremamente visíveis e cheios de AMOR. Que é o que importa.
No dia em que todas as mulheres que buscam um parto respeitoso (e lutam por ele) perceberem que estão exercendo um ato político FEMINISTA de direito às escolhas sobre o próprio corpo e de luta pelo fim da violência obstétrica (que é uma das formas de violência de gênero), e que o fato delas gestarem, parirem e amamentarem NÃO as torna mais responsável pela criação dos filhos, e que essa criação DEVE ser compartilhada com os homens, assim como no dia em que todas as feministas entenderem que o movimento pela humanização do parto faz parte de uma luta feminista pelo direito de exercer uma maternidade consciente (que é uma escolha - imposta culturalmente ou não - da grande maioria das mulheres) e sem violência, e que isso faz parte de sua autonomia como mulher e MÃE, e que mulheres e crianças estão sendo violentadas e mortas por um sistema obstétrico cruel e misógino que crê que a mulher é um ser defeituoso, o movimento será um só, e o parto se tornará pauta fundamental do movimento feminista, dos direitos reprodutivos da mulher, assim como a descriminalização do aborto já é.
Na minha cabeça de FEMINISTA (DO PARTO E DO TODO), tá tudo junto e misturado, a luta é uma só: LIBERDADE, AUTONOMIA, PROTAGONISMO, DIREITOS DA MULHER, FIM DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO.
A violência de gênero existente na assistência ao parto possui similaridades incríveis com a violência sexual, especialmente um tipo de violência sexual 'invisível': o ESTUPRO MARITAL.
A título de definição, o estupro marital é aquele que acontece quando a mulher é forçada, física ou psicologicamente, a ter relações sexuais com o seu marido/companheiro/namorado, por força, muitas vezes, de imposições culturais vindas de ambos os lados: ele acha que ela, como esposa, deve ‘obrigações’ sexuais a ele e que isso faz parte de sua ‘função’ como esposa, independente de estar desejando ou não. E ela, pela mesma imposição cultural, sente-se forçada a ceder, nem que seja para ‘acabar logo com aquilo’, ir dormir sossegada e garantir o maridinho satisfeito, já que disseram a ela que a vida de uma mulher só tem sentido se for ao lado de um ~bom~ homem.
O estupro marital é uma violência sexual relativizada e aceita por nossa cultura. Para algumas mulheres é, inclusive, difícil diferenciar o sexo propriamente dito do estupro marital, muitas ficam confusas sobre o que realmente está acontecendo, haja vista que o enraizamento machista dessa ‘função feminina’ é determinantemente forte, a ponto de fazê-las não perceber exatamente que estão sofrendo violência. O que elas têm certeza, porém, no seu íntimo, é que aquilo as deixa desconfortáveis e psicologicamente afetadas. Algumas mulheres, inclusive, podem acreditar que o problema ‘é com elas’, porque, com a repetição dessa forma de violência em ‘doses homeopáticas’, o desejo sexual, muitas vezes, deixa de existir, e o sexo passa a ser uma verdadeira obrigação e tortura, o que pode levar, inclusive, a dores locais durante o ato sexual (por pura falta de desejo, relaxamento e entrega), aumentando a sensação de que ‘ela’ é que não está bem e à auto-culpabilização pela crise sexual em que o casal começa a ingressar.
Definido o conceito de estupro marital, voltamos às associações com a violência obstétrica:
1. Ambas as violências envolvem invasão não-autorizada de órgãos genitais femininos. Afinal, calar não é consentir. Calar, muitas vezes, é o que resta àquela mulher, que foi ensinada a obedecer e a ficar calada em situações de sofrimento.
2. Ambas as violências envolvem uma pessoa em quem elas confiam e que atua como agressor, (no caso da violência obstétrica, exceto nos casos em que o parto acontece em hospital público ou em emergência). Mas, via de regra, o autor da violência obstétrica é, muitas vezes, o/a ginecologista fofo/a que a acompanha há anos.
3. O agressor é uma pessoa que se entende como ‘superior’ na relação, porque, culturalmente, ensinaram isso a eles. O médico, no papel de ‘deus do conhecimento’, o marido no papel de ‘deus-homem’ mesmo.
4. Ambas as violências têm um fator culpabilizatório da mulher fundamental para que o processo continue a ser executado e repetido. Ela é colocada como a única responsável pela manutenção do casamento, assim como ela é colocada como a única responsável pela vida daquela criança, e a violência psicológica feita pelo agressor coloca justamente em xeque essa responsabilidade de mulher e mãe.
5. Após um parto violento, daqueles que terminam com a sensação de que não era exatamente como o que ela tinha em mente, assim como após um estupro marital, muitas mulheres se sentem mal, se sentem violentadas, tanto que não são poucos os relatos de mulheres que sentiram 'como se tivessem sido estupradas' (no sentido literal do termo) após uma assistência obstétrica violenta, principalmente daquelas que gostariam de ter tido um parto normal bonito, mas, ao invés disso, em função do relativismo cultural que ‘permite’ essas formas veladas de violência, ter sofrido um parto normal desrespeitoso ou uma cesariana sem indicação.
6. Ambas as violências minam a auto-estima da mulher. Na violência obstétrica, ela sente que seu corpo é incompetente para parir, o que também pode ser determinante com relação à sua segurança nos cuidados com o bebê e na capacidade de amamentar. No estupro marital, ela se sente incompetente como esposa, por seu corpo (mais uma vez, o ‘corpo defeituoso’) não sentir a mesma vontade sempre que o seu marido quer sexo.
7. O agressor não sabe que é um agressor, até que a mulher se conscientize de que sofreu ou sofre violência e que, mesmo depois disso, consiga denunciar, o que é muito difícil em ambos os casos. Ele – o agressor – se sente injustiçado sempre que a denúncia acontece. E, se a denúncia for consumada, a primeira reação do agressor é chamar a mulher de ~puta~ ou de ~louca~ (só para variar).
Algumas diferenças e que geram dificuldades nas denúncias: não temos uma legislação ainda específica direcionada à violência obstétrica, o que atrapalha ainda mais as denúncias. Com relação ao estupro marital, dificilmente acontece lesão corporal, o que também pode dificultar ou inibir a denúncia (além da própria dificuldade de se entende-lo como violência, assim como ocorre na violência obstétrica). As lesões corporais oriundas do parto são justificadas como ‘necessárias’ pelo sistema obstétrico violento em que estamos inseridxs.
Portanto, agora que todos estão percebendo que existem duas violências de gênero com características de violências sexuais (a sexual propriamente dita e a obstétrica), mas que são invisibilizadas por nosso relativismo cultural, é chegada a hora de abrir os olhos das mulheres para a denúncia. Porque NENHUMA MULHER deve ser submetida à violência, nem a explícita e escancarada, nem àquelas violências que são cometidas em doses perigosamente homeopáticas.
Crédito da Foto: Carla Raiter - Projeto 1:4 - Retratos da violência obstétrica www.carlaraiter.com/1em4
Podemos concordar que a grande maioria das pessoas de cultura ocidental acha um verdadeiro absurdo e falta de humanidade a CLITORECTOMIA, ou seja, a extirpação mecânica do clitóris, feita ainda em algumas meninas no mundo, por motivação cultural e religiosa extremistas.
E se eu disser que nós também temos a nossa própria mutilação genital feminina, também aceita culturalmente, o que vocês achariam disso?
Pois é. A nossa EPISIOTOMIA está aí para contar essa história. O famoso 'corte' executado na entrada da vagina no momento do parto é uma mutilação genital feminina aceita por nossa sociedade. Exemplo do típico procedimento que foi introduzido na medicina sem absolutamente nenhum embasamento científico, e que vem sendo repetido em milhares e milhares de mulheres desde então.
Raciocinando de forma sociológica, é extremamente emblemático para a manutenção de nossa cultura machista cortar a entrada da vagina e, pior, fazer com que acreditemos que não se consegue parir sem esse corte.
Mas vamos falar da vagina. Ah, a vagina... Essa maldita, que põe os homens em perdição, que faz com que eles fiquem loucos e não consigam mais agir racionalmente... Ah, a vagina, símbolo de tanta falta de controle... Ah, a vagina... Até 'dentes' ela já teve, de tão perigosa que é. Melhor cortá-la, assim a gente mostra quem manda nela, na vagina e em sua proprietária. E, assim, também conseguimos fazer com que elas - as proprietárias dessa estrutura anatômica demoníaca - acreditem que nasceram com ~defeito~, e precisam da ajuda de uma medicina que tem tantas intervenções com base, apenas, na misoginia de nossa cultura.
Da mesma forma que a extirpação do clitóris emperra e bloqueia a vida sexual de uma mulher, a episiotomia, muitas vezes, pode exercer o mesmo efeito. A cicatriz do corte continua a doer em muitas, física ou emocionalmente. O simbolismo contido neste ato médico e disfarçado de 'necessidade em ajudar' é imenso, basta parar para pensar em todo o contexto, do que significa a vagina em nossa cultura e na necessidade que essa cultura tem de controlar o corpo da mulher e sua sexualidade, seja de que forma for, inclusive disfarçada de procedimento médico essencial.
Lembrar também da expressão 'o ponto do marido', que tantos ainda usam para valorizar a episiotomia e suas inúmeras suturas. Inacreditável o machismo contido em tudo o que permeia a famigerada episiotomia.
A episiotomia é uma LESÃO CORPORAL (anotem isso) de caráter MUTILATÓRIO, afinal, a secção feita na musculatura do períneo é de forma transversal à direção dessas fibras musculares, ou seja, em palavra mais fáceis de entender, o músculo circular é cortado ao meio e, por mais bem suturado que seja, JAMAIS volta a ser o que era antes, porque a sutura não une de forma alguma essas fibras de modo que elas funcionem como antes do procedimento. E isso trás consequencias emocionais e físicas muitas vezes irreversíveis para muitas mulheres. Por que continua sendo praticada rotineiramente na grande maioria dos partos normais que ocorrem no Brasil? E porque muitas mulheres não questionam isso?
Exterminemos todas as formas de mutilação feminina. Também temos direito a viver nossa sexualidade de forma completa, inteira, sem cortes. Nós também temos direito à nossa integridade física e emocional. Nós também temos direitos a orgasmos livres e múltiplos.
Deixem nossos períneos e nossos clitóris em paz.
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“Os meus 2 ‘partos normais’ foram no hospital... o primeiro foi o da episiotomia dessa cicatriz imensa da foto.. e o segundo foi humanizado..
O bebê do primeiro parto nasceu com 46cm, 3.170kg com essa episio enorme... já o bebê do segundo parto, nasceu com 3.645kg e zero de laceração.
Bom... em 2008 acreditava que a cesárea era a opção mais segura e 'menos sofrida’, afinal era o que era 'vendido' pra mim. Até que por volta das 30 semanas, após ler muito, resolvi que queria um parto normal. O médico do pré-natal se mostrava 'favorável'… e pra minha surpresa, ele disse que fazia sim, mas eu tinha que saber que a minha pélvis seria “dilacerada” no parto e a “bexiga poderia sair pra fora”… “bem comum isso”.
Saí chocada do consultório e fui atrás de médicos, informação! (…)
Na segunda-feira, eu tinha consulta marcada com o "antigo médico da pélvis dilacerada e bexiga que poderia sair pra fora"... e nessa consulta, eu já tinha na minha cabeça que seria a última. Até que ele resolve me fazer um exame de toque. Eu estava com 37 semanas e nesse toque ele viu que eu estava com 3 dedos de dilatação. Sugeriu então que descolasse minha bolsa pq provavelmente eu entraria em trabalho de parto de madrugada e ele "talvez" não pudesse me atender.
Pensei muito e acabei concordando. Não imaginava que seria assim. Mas ok. Ele me mandou para a maternidade muito rápido porque ele iria pra lá assim que acabasse as consultas dele.
Cheguei no hospital e recebi o pacote completo: raspagem dos pêlos, lavagem e soro. Me deixaram na sala de pré-parto com o soro e deitada… quando ele chegou, estourou minha bolsa e viu que já tinha dilatação total (duas horas no soro). Corremos para o centro cirúrgico e lá tive minha "cesárea vaginal".
Não foi nada como queria, foi traumatizante e a recuperação da episiotomia... foi péssima!”