sábado, 15 de fevereiro de 2014

Um foto-relato de parto: Laís e Diogo, nascimento de Heitor.

Existem muitas maneiras de se relatar um parto. Pode ser verbalmente, pode ser por escrito, com ou sem fotos ilustrando. Laís preferiu fazer diferente (e não menos emocionante), sempre acompanhada do companheirão Diogo, ao relatar o parto domiciliar de Heitor: fotos com palavras ilustrando. Um belíssimo 'foto-relato' de parto, de um lindo e empoderado VBAC* domiciliar, que aconteceu no dia 01 de abril de 2013.

Parto acompanhado pelas Enfermeiras Obstetras Tatianne Cavalcanti Frank e Suzely Aragão (parteiras amadas do meu coração) e pela Doula aqui que vos escreve, sempre emocionada cada vez que abre essas imagens.

As imagens dizem tudo. Deliciem-se.

DICA: clique na primeira foto para ver mais ampliado, e depois vá passando com a seta da direita do teclado.

















































*VBAC: Vaginal Birth After Cesarea (Parto Normal Após Cesárea)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Encontro Ishtar: 15 de fevereiro: A DOULA

Para conhecermos melhor as atribuições desta profissional cujo foco principal é o bem-estar da mulher que está em trabalho de parto.

Tem até poema para ela.

Ser Doula é servir. Com amor.




DOULA

Um mar de águas calmas dentro de mim
durante um breve e sublime tempo.
Uma gota de sangue e,
de repente, o mar de águas
- antes calmas –
transforma-se
em frondosa cachoeira.

O aviso da chegada
de quem foi sempre amado
e aguardado com tantos
anseios, dúvidas, medos.

Chegam junto pequenos abraços.
Ainda aqui dentro.
Porém, chega o tempo
em que as ondas do mar
- antes calmo -
começam a mostrar sua força.
E aumenta o medo
daquilo que não se conhece,
daquilo que está por vir.

Mas entra o antimedo,
pela porta, em minha vida.
Em nossas vidas.
Palavras de conforto,
atitudes exatas,
aliviam a força
das ondas,
aliviam a chegada
do medo.
Mãos que antagonizam
o efeito das ondas.
Palavras que destroem
o efeito do medo.

Serviência a quem está
prestes a entrar
em um novo mundo.
Mãe e filho,
muitos abraços,
mais fortes,
mais frequentes.
E, junto aos abraços,
mãos mágicas
Que transformam a dor
na magia da chegada.

Antes o mar calmo,
a gota de sangue.
Depois a cachoeira,
junto às fortes ondas.
Agora o fogo da chegada.
Natureza pura e simples,
como tem que ser.

Não há sofrimento,
não há invasão,
não há erros.
Só há conforto,
incentivo
e alívio.

Vieste servir
ao início sublime
de muitas e
novas vidas.
Doula, doa.
Dor, amor.
Tudo junto.
Doula doa Amor.
Doula do Amor.


Paty Sampaio (em homenagem a minha doula Nelia e a todas as doulas da cidade)


Recife, 16/07/11

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Para Adriana, Eduardo e Peu: só AMOR.

Parabenizando Adriana e Eduardo pela força, energia, sintonia, amor, entrega e aceitação do processo respeitoso da chegada de Pedro (ou Peu, para xs íntimxs). E aproveitando para fazer uma declaração de amor (e de ativismo de feminista do parto - lógico que eu não vou perder essa oportunidade hehe).




Meus parabéns a uma mulher determinada, decidida, que, aos 45 do segundo tempo, virou sua vida ao avesso, mudou tudo o que estava planejado, mudou de obstetra às 41 semanas de gestação, após 2 cesáreas prévias, mesmo descobrindo um quadro de pré-eclâmpsia leve se desenvolvendo. Esse processo desenvolveu várias descargas de adrenalina o qual nenhuma gestante deveria passar, mas ela enfrentou tudo isso com muita força. Uma lindeza a força dessa mulher em trabalho de parto; uma lindeza a resignação e o amor deste homem apoiando todas as decisões dela e participando ativamente do processo de chegada de seu primeiro filho. Uma lindeza a aceitação de ambos de que nem sempre o processo finaliza como a gente planeja, mas o entendimento de que o mais importante em tudo é a forma como o processo se conduz, com respeito, com amor, com emoção, muita emoção. O caminho faz toda a diferença na vida das pessoas envolvidas, inclusive na do bebê que está chegando. O parto humanizado é um caminho, ele não é o fim do caminho, mas todo o percurso.

Agradecendo a esta nova família pela honra em me permitir participar de um momento tão íntimo, ímpar e importante na vida dessas pessoas. Agradecendo toda a confiança nas nossas conversas e indicações.




Parabenizando e agradecendo fortemente também à equipe que topou a mudança de última hora, que monitorou tudo com muito cuidado, com muito amor, com muito respeito a todas as escolhas dessa mulher. Foi um nascimento LINDO, sem sofrimento, humanizado. Peu nem chorou direito, não sentiu o choque da transição entre o mundo do lado de dentro para o mundo do lado de fora. Ficou só observando os olhos do seu pai, ambos em processo de reconhecimento mútuo. Mamou na primeira hora, não foi agredido no pós-parto imediato com luzes fortes, nem frio, nem colírios, nem sondas, nem corte precoce de cordão umbilical, nem separações bruscas.

Agradecendo à rede de apoio com a qual eu sei que consigo sempre contar, seja com dicas técnicas, seja com emanação de energias feministas. Um universo se forma e conspira fortemente em defesa dos direitos da mulher e da criança em um parto humanizado. É impressionante e incrivelmente linda a força conjunta que nós temos, a conexão que nós formamos em defesa das escolhas das mulheres.

Apenas: LINDO. Ainda em êxtase aqui.




Seja bem-vindo, Peu. Que você tire de letra a amamentação, assim como tirou de letra o trabalho de parto às 41 semanas e 3 dias de gestação. Tava era bom lá dentro, néra? Mas aqui fora também é bem legal, tenho certeza de que sua mãe e seu pai farão você entender que aqui fora pode ser ~quase~ tão bom como estava dentro do seu aconchego simbiótico no útero de sua mãe. Tenho certeza de que sua missão aqui será vista em breve neste mundo que precisa tanto de mudanças. E eu acredito MUITO na sua geração, na geração das crianças que nascem assim, dessa forma.

Seja bem-vinda ao mundo de uma obstetrícia respeitosa, Adri. Esse é o mundo no qual eu acredito. Um dia todas as mulheres em trabalho de parto serão tratadas como você foi hoje. Porque TODAS as mulheres merecem uma assistência humanizada e cuidadosa, sem perder o rumo da segurança e da ciência.

Seja bem-vindo ao mundo dos pais, Eduardo. Boas surpresas o aguardam. E muito aperreio também hehehe 

E, por fim, seja bem-vindo, 2014. Você chegou chegando.

‪#‎emocionada‬

‪#‎humanizabrasil‬

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quem tem medo de parto pélvico?

Um lindo vídeo de um parto humanizado hospitalar de bebê sentado. E um texto maravilhoso de Ana Cristina Duarte sobre a evolução (ou desvolução) histórica que transformou o parto pélvico em um terror absoluto para todas as grávidas e profissionais que assistem partos no Brasil. E não precisa ser assim. 

Vamos mudar essa história de terror, vamos transformá-la em muitas histórias de AMOR. Como essa aí abaixo.




"Olha, vou contar para vocês um pouco sobre partos pélvicos, o que conversei ontem com uma linda gestante cujo bebê resolveu ficar sentado até o final da gestação. Ela agora está na difícil tarefa de ter que escolher o que fazer.

Houve um tempo, até uns 50 anos atrás, que pélvico era um tipo de parto. Simples assim. Os médicos sabiam, as parteiras sabiam, e pronto. As nossas bisavós tiveram ou tinham uma irmã ou amiga que teve parto pélvico, sem maiores delongas. 

Até que surgiu a cesárea, cada vez mais segura, cada vez mais comum. Nos cursos de medicina os médicos foram perdendo contato com o pélvico e na ausência do professor, operavam. Muitos cursos de medicina pararam de ensinar parto pélvico. 

Em 2000 uma mulher do Canadá publicou um artigo enorme dizendo que o parto pélvico tinha mais risco para o bebê do que a cesárea. Esse artigo destruiu de vez as chances de um médico aprender a fazer parto pélvico e as mulheres de terem esse direito. 

Cinco anos depois, já tinham saído mais dois artigos, um provando que o anterior foi tremendamente mal feito e não tinha o valor acadêmico que lhe foi atribuído e outro acompanhando essas mesmas crianças que nasceram no trabalho anterior e mostrando que a médio prazo a via de parto não fazia diferença para as crianças. Mas que a médio prazo continuava sendo pior para as mulheres a cesariana. 

Agora já estão em andamento trabalhos nos EUA, Alemanha, Israel, França e Austrália mostrando que o parto pélvico é tão seguro quanto a cesárea, respeitadas algumas condições (bebê de termo, com menos que 4kg). 

Qual é a questão no Brasil? A questão principal é a do risco profissional. Para os que não sabem fazer parto pélvico, o cara tem pavor de acontecer alguma coisa. Para os que sabem, o problema é o risco jurídico. Diante da cultura da cesariana no Brasil, qualquer coisa que aconteça num parto pélvico, mesmo que seja alguma coisa nada a ver com o parto, algo que a criança já tinha, até um problema congênito, por exemplo, o médico vai ser acusado de ter causado aquele dano.

Às vezes não é nem o paciente que move processo, mas sim outros médicos. Num parto pélvico recente que acompanhei num hospital, o bebê nasceu e foi atendido por um pediatra da casa (não deu tempo de chamar um dos nosso). O pediatra enlouqueceu por terem deixado o bebê pélvico nascer de parto normal e disse pro médico e para os pais que tinham fraturado as duas pernas do bebê. O bebê não teve fratura alguma, raio X veio lindo, o médico não se conformou, mandou fazer de novo o raio X, que veio lindo novamente, e só assim ele parou de infernizar a pobre mãe e o pobre médico. 

E tem muito médico por aí que acha um absurdo parto normal ou natural, quanto mais um parto pélvico. Que loucura, que perigo! 

Até mesmo em partos normais a gente vê isso. Qualquer problema que o bebê tenha, se nasceu de parto normal, a culpa foi do parto. Paradoxalmente são os bebês nascidos de cesariana que têm mais problemas. Mas ninguém se preocupa com esses, nesse caso o bebê é que era doentinho. Mesmo que seja um pulmão molhado com 10 dias de UTI. Não são só médicos que estão tão mal-educados quanto à questão do nascimento. Toda a sociedade está! Muitos maridos, famílias, amigas, enchendo a cabeça das mulheres que terão ou que tiveram um parto pélvico normal. 

Atender, dentro desse cenário, um parto pélvico, é um serviço para heróis. O risco que esses médicos e parteiras correm não é do parto. É o da sociedade em que vivemos. 

É o papel de cada uma de nós aqui, como mães, profissionais e educadoras (toda mãe é uma educadora), mostrar para a sociedade, em palavras meigas e sutis, que as pessoas enlouqueceram! Que as pessoas não estão entendendo a questão do nascimento. 

Ninguém pensa nos riscos que uma mulher corre a longo prazo após uma ou mais cesarianas. Ninguém quer saber das placentas acretas, prévias, rupturas, infertilidade. Ninguém cumprimenta uma mulher que teve um parto pélvico. As pessoas a chamam de louca! 

E cabe a cada uma de nós ajudar a mudar esse cenário. 

Deixo aqui meu abraço a cada mãe que teve a coragem de ter um parto pélvico e um abraço ainda mais forte em cada mãe que não conseguiu vencer essa gigantesca onda contrária, quase tsunâmica. E um abraço ainda mais forte e profunda solidariedade a quem quis tentar, mas teve seu direito negado. 

Todos vocês são absolutamente dignas de toda a nossa admiração. 

Um abraço longo e demorado a cada profissional de saúde que tem a coragem de permtir a uma mulher parir um bebê que resolveu vir com o bumbum primeiro.

Ana Cris"


Adendos:

Artigo de 2000 que destruiu a arte do parto pélvico em todo o planeta (Valeu Hannah, amei, fofa):http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(00)02840-3/abstract

Artigo feito 5 anos após criticando o de 2000 (valeu, pessoal!)

Analisando as crianças 2 anos após o parto e mostrando que no final não havia diferença:

Revisão sobre Versão Cefálica Externa (manobra para virar o bebê ainda dentro da barriga, possibilitando um parto cefálico)

sábado, 25 de janeiro de 2014

Eu e o Ishtar-Recife: Uma História de AMOR



Eu, simplesmente, AMO o Ishtar - Recife.




Amo os nossos encontros, principalmente encontros como o de hoje, que tinha MUITA gente procurando informação, procurando sair da bolha, procurando empoderamento para definir suas escolhas e dicas de como peitar a cultura da violência obstétrica, que também é violência contra a mulher e contra a criança.



Amo o mundo da humanização do parto.

Amo poder estar mais disponível a ajudar mais e mais mulheres, como doula, como feminista e como coordenadora do grupo, para que elas não passem por violência, para que tenham uma experiência inesquecivelmente positiva de parto.



Cada parto transformador que acontece com uma das participantes do grupo (de qualquer grupo) me deixa em êxtase, como o de Marília, que aconteceu ontem, e ode Paty Brandão (foto);


Cada encontro fica mais cheio de mulheres, homens e curiosxs.

Cada encontro fica mais emocionante para quem faz e para quem participa. Está sendo comum o derramamento coletivo de lágrimas no fim dos encontros, lágrimas de libertação, lágrimas de esperança.

Amo esse mundo de ativismo em defesa dos direitos das mulheres.





Lembro do primeiro encontro em que fui, há cerca de 5 anos, onde só tinha EU de grávida, e duas recém-paridas. Os encontros eram pequenos, no salão de festas da casa de Analu, uma das fundadoras do grupo. Quando vejo no que isso está se transformando, na proporção que está tomando, em todo o Brasil, só consigo ver luzes e alegrias à frente.

Sei que ainda temos muito o que mudar, não só referente ao parto, mas também à cultura machista em que vivemos. Mas quando olho para trás, vejo como mulheres unidas e conectadas em defesa de nosso gênero fazem, verdadeiramente, uma revolução social bem sucedida.






O futuro é nosso, e é um futuro mais justo e sem violência contra mulheres e crianças.





Definitivamente, parir é um ato político. Não era para ser, assim como várias outras atitudes de mulheres que apenas são livres também não deveria. Deveria ser natural, caso a sociedade aceitasse as atitudes de mulheres sem julgamentos. Mas é político.





E as formiguinhas feministas e do parto continuam fazendo seu papel, às vezes precisam ferroar, às vezes apenas ajudam as outras a carregarem as folhas mais pesadas. Mas o trabalho está sendo feito, na maioria das vezes de forma pacífica, sem cessar, e com resultados extremamente visíveis e cheios de AMOR. Que é o que importa.